top of page

USK #259 | Casa Bradesco

  • 3 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de abr.

Como artista e designer, participo ocasionalmente dos encontros do Urban Sketchers (USK) para calibrar o olhar e escapar da automação digital. Neste artigo, relato a edição #259, realizada na Casa Bradesco, em São Paulo. — um processo de observação 'crua' onde o desenho se torna o registro definitivo da nossa existência no espaço urbano.


O Urban Sketchers - uma insurgência contra a amnésia visual


O Urban Sketchers (USK) é uma rede global de desenhistas, profissionais e amadores, dedicada à prática do desenho em locação. Mais do que um coletivo artístico, o movimento funciona como um observatório antropológico em tempo real, onde o papel se torna o espelho do mundo. Como definiu seu fundador, Gabriel Campanário: "Um desenho é um registro de um momento no tempo, uma forma de dizer 'eu estava lá, eu vi isso e isso me importou'.”


História

2007 | A Fundação: O jornalista e ilustrador espanhol Gabriel Campanário cria um grupo no Flickr em Seattle. O objetivo era simples, mas radical: compartilhar desenhos feitos exclusivamente "no local", combatendo a estetização artificial do estúdio.

2009 | O Manifesto e a ONG: O movimento se formaliza como uma organização sem fins lucrativos. É estabelecido o Manifesto de 8 Pontos, uma "Constituição" que exige veracidade: "Nossos desenhos são um registro do tempo e do lugar" e "Somos fiéis às cenas que presenciamos".


2010 | O Primeiro Simpósio Internacional: Realizado em Portland (EUA), o evento marcou o início da troca presencial de técnicas entre continentes, transformando o USK em uma academia nômade de artes visuais.


2011 - 2015 | A expansão: O movimento ganha força no Brasil e em Portugal. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba tornam-se pólos de documentação urbana, utilizando o desenho para registrar a fricção entre a herança colonial e o brutalismo modernista.


2017 - 2023 | Documentação social: O USK deixa de focar apenas em arquitetura e passa a documentar crises, protestos e mudanças climáticas. O desenho de observação torna-se uma ferramenta de jornalismo visual, capturando a alma das cidades em transformação.

Hoje, com centenas de capítulos oficiais em mais de 60 países, o USK é o maior arquivo visual coletivo da humanidade, unindo o olhar técnico à sensibilidade poética de milhares de observadores.


O ritual do Urban Sketchers segue uma dinâmica única de ocupação urbana: o grupo seleciona marcos históricos da cidade para observar e registrar. No entanto, o ápice desse processo ocorre no final, onde as obras são expostas ali mesmo, no próprio local de origem. Essa exposição imediata transforma o espaço público em galeria e permite que o monumento "se veja" através do olhar de múltiplos artistas. É o fechamento de um ciclo onde a arquitetura inspira o traço, e o traço devolve ao edifício uma nova camada de significado.

A Casa Bradesco

Nesta edição, a Casa Bradesco não foi apenas um cenário, mas uma âncora para a nossa percepção. Localizada no coração de São Paulo, ela se destaca não como um objeto passivo, mas como uma estrutura que exige atenção.



#USK 259 - Casa Bradesco | São Paulo - SP

Geometria em foco

Sua arquitetura, que transita entre o Ecletismo e o Neoclássico, oferece um estudo prático sobre proporção e equilíbrio. Para quem desenha, o espaço revela que a beleza nasce da ordem. As simetrias da casa não existem apenas para enfeitar; elas funcionam como guias visuais que nos levam a um estado de calma e concentração total — o chamado flow. Desenhar suas colunas e janelas é, portanto, um exercício de sintonizar a mente com a harmonia do edifício. Como bem define o arquiteto Juhani Pallasmaa, "a mão é o horizonte do pensamento".




O processo

A execução técnica dos meus desenhos nos encontros do USK, geralmente é conduzida sob uma lógica de frieza operativa: no nanquim, não há espaço para o refúgio da borracha. Diferente do grafite, por exemplo, onde você constrói camadas de cinzas até atingir a profundidade, o nanquim oferece um impacto imediato. Ele é reconhecido pela sua capacidade de criar contrastes brutais entre o preto profundo da tinta e o branco do papel. Essa técnica força o artista a simplificar a realidade em luz e sombra (Chiaroscuro).


Para esta peça, a escolha do papel de 300 gramas foi fundamental. O nanquim é uma tinta líquida e pigmentada, papéis mais finos tendem a "ondular" ou "sangrar" (quando a tinta se espalha descontroladamente). Um papel de 300 gramas possui a densidade de um cartão; ele recebe a tinta sem deformar, permitindo que a caneta deslize com precisão cirúrgica.

O papel encorpado oferece uma base sólida para as hachuras (aquelas linhas paralelas ou cruzadas que criam as sombras). Nele, o preto do nanquim ganha uma vibração que papéis comuns absorvem e "apagam".




Treinando o olhar

A participação em mais uma edição do USK reafirma a urgência da observação 'crua' como antídoto à superficialidade contemporânea: ao transitar fisicamente pelo ambiente histórico, o artista não apenas documenta a arquitetura, mas expande seu próprio repertório espacial através de uma imersão sensorial profunda. Diferente da fotografia, que captura uma imagem passageira em milissegundos, o desenho de observação atua como uma documentação ativa que fixa a memória no nível neuromuscular, transformando o registro visual em uma produção de conhecimento real — o chamado efeito epistêmico. Sem esse rigor técnico e intelectual, a Casa Bradesco seria apenas um endereço ou um frame diluído no fluxo digital; através do traço, ela se desprende da efemeridade do concreto para se consolidar como uma estrutura permanente na memória e na identidade humana.



bottom of page